Estamos próximos de descobrir um medicamento eficaz contra a Covid-19?

A busca por vacinas e antivirais eficazes contra a Covid-19 mobiliza cientistas e pesquisadores desde o início do ano. Diversos países anunciam testes com medicamentos existentes e também pesquisas de como o vírus age no organismo. O foco central é um só: descobrir a cura.

No Brasil, a cloroquina (ou hidroxicloroquina, derivado menos tóxico) é a aposta do governo para a cura, embora ainda não existam pesquisas que comprovem a verdadeira infalibilidade do medicamento. A insistência pelo uso deste remédio feita pela cúpula ligada ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez acender sinal de alerta entre pesquisadores e profissionais da saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já afirmou que os estudos sobre uso da cloroquina ainda não são conclusivos.

Mas, afinal, com todos esses esforços e pesquisas, estamos próximos de descobrirmos um medicamento eficaz contra a Covid-19? Eliane Campesatto, farmacêutica, doutora em ciências biológicas, professora da Universidade Federal de Alagoas e professora convidada do IBras, explica que ainda é muito cedo afirmar se de fato os medicamentos testados são efetivos na população em geral. “Estão tentando desenvolver um fármaco específico, mas é mais rápido trabalhar com medicamentos que já tâm eficácia comprovada e são liberados para outras doenças, do que sintetizar um novo fármaco e fazer todos os ensaios clínicos, o que levaria um tempo muito grande de pesquisa (7-14 anos)”, afirma.

Sobre o uso da cloroquina no tratamento, Eliane adverte que não há qualquer resultado conclusivo sobre a cloroquina ou hidroxicloroquina prevenir a infecção por coronavírus e seu uso desnecessário pode gerar muitos efeitos colaterais. Para evitar a automedicação, a Anvisa mudou o status deste medicamento para “CONTROLADO”.

A mudança da Anvisa ocorreu após anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em que afirmava que a hidroxicloroquina e a cloroquina poderiam curar pacientes com Covid-19. Como consequência da fala do presidente americano, estoques do medicamento praticamente se esgotaram no Brasil e nos Estados Unidos.

“Muitas pessoas por desespero e falta de informação, se anteciparam e correram às farmácias atrás destes medicamentos, que em ensaios clínicos preliminares e inconclusivos, foram eficientes para combater o novo coronavírus”, explica. Além da falta de confirmação de sua eficácia, o uso do medicamento possui efeitos colaterais como fraqueza, alterações cutâneas, cardiomiopatia, anemia aplástica, hipoglicemia grave, neuropatia e distúrbios visuais como a cegueira.

Riscos da automedicação
Em busca de rápida resolução da doença, muitas pessoas apelam para a automedicação. Vista como uma solução para o alívio imediato de alguns sintomas, a prática pode trazer consequências graves, como dependência, intoxicação e até a morte. Além disso, a administração incorreta de um medicamento pode acarretar o agravamento de uma doença, uma vez pode mascarar determinados sintomas.

Segundo Eliane, Essa prática torna-se ainda mais preocupante em época de pandemia do coronavírus, pois alguns medicamentos podem deixar as pessoas mais vulneráveis ao Covid-19, e até mesmo agravar o quadro daqueles que já foram diagnosticados com a doença.

É o caso de medicamentos a base de corticosteróides como betametasona e dexametasona, que aumentam o risco de mortalidade pois acabam por atrasar a liberação do vírus em pacientes infectados. Dos antibióticos, que possuem eficácia apenas no tratamento contra bactérias e não funcionam contra vírus, embora possa ser utilizado em hospitalizações por Covid-19 para impedir a co-infeçção bacteriana.

E também do uso de anti-inflamatórios não esteróides (AINEs), como ibuprofeno, cetoprofeno, naproxeno, diclofenaco, dentre outros, que utilizados no início do curso da doença podem ter um resultado negativo no desenvolvimento da infecção.

“Essas preocupações são baseadas em relatos de alguns pacientes jovens que receberam AINEs no início da infecção e sofreram doenças graves. No entanto, não existem dados clínicos ou de base populacional que abordem diretamente o risco de AINEs. Por precaução, sugere-se o uso do paracetamol ou dipirona como o agente antitérmico preferido, e, se os AINEs forem necessários, a menor dose eficaz deve ser utilizada”, acrescenta a professora.
A polêmica sobre o ibuprofeno

Não há comprovação científica de que o ibuprofeno seja responsável pelo agravamento da COVID-19. No artigo publicado pela revista Lancet, foi constatado um aumento na expressão da ECA-2 nos pacientes que fazem uso de inibidores da ECA, bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA), glitazonas e ibuprofeno.

“Como os coronavírus que causam infeção em humanos (SARS-CoVe SARS-CoV2) se ligam às células-alvo por meio da enzima conversora da angiotensina 2 (ECA-2), que é expressa pelas células epiteliais do pulmão, intestino, rim e vasos sanguíneos, sugeriram um aumento do risco de desenvolvimento da infecção grave e fatal nos pacientes em uso de ibuprofeno”, detalha.
Em casos leves, finaliza a professora, devem ser utilizadas medidas não-farmacológicas, tais como o repouso, hidratação e alimentação adequada. “O tratamento farmacológico serve apenas para pacientes sintomáticos. E o mais importante, isolamento domiciliar por 14 dias a contar a data de início dos sintomas”, completa.

 

O que pensam agências e organizações de saúde ao redor do mundo sobre o ibuprofeno:

Visão compartilhada pela European Medicine Agency (Agência Europeia de Medicina, em português), que atesta a não comprovação científica do ibuprofeno com o agravamento da COVID-19. Com isso, pacientes e profissionais da saúde podem continuar usando o ibuprofeno conforme diretrizes nacionais de tratamento da União Europeia, seguindo a recomendação de usar a menor dose eficaz pelo menor tempo possível.
A Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency (Agência Regulatória de Produtos de Medicina e Assistênia Médica, em português) não relaciona cientificamente o ibuprofeno com a piora no tratamento do novo coronavírus, mas ressalta que casos confirmados da COVID-19 devem usar paracetamol como substituto do medicamento. No entanto, pacientes com prescrição de ibuprofeno não devem interromper o uso por conta própria.
A Organização Panamericana da Saúde (OPAS) enfatiza que sejam geradas evidências adicionais e considera adequado o sugerido pelo NHS (espécie de SUS britânico) do Reino Unido, que reconhece a falta de evidências a respeito dos efeitos prejudiciais do ibuprofeno na COVID-19 e não aconselha suspender tratamentos com esse medicamento.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia está de acordo que não há evidências definitivas de que a utilização de ibuprofeno pode resultar em maior risco da COVID-19 por conta da elevação dos níveis da ECA-2. É recomendada a avaliação individualizada do paciente em relação ao risco cardiovascular resultante da suspensão dos fármacos versus o risco potencial de complicações da doença.

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