Cuidado farmacêutico com pacientes em saúde mental no CAPS

O atendimento em saúde mental é uma das áreas onde o farmacêutico pode atuar, de maneira interdisciplinar, junto a pacientes na assistência farmacêutica e acompanhamento do tratamento. No serviço público, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) – unidades que garantem cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar a pessoas com doenças mentais – é um dos locais onde a farmácia clínica pode chegar e atuar de maneira efetiva. Até 2017, o Brasil contabilizava 2.465 unidades do CAPS, mas ainda com poucos farmacêuticos prestando serviços.

Afinal, quais os desafios do farmacêutico que trabalha no cuidado farmacêutico em saúde mental, principalmente nos serviços públicos de saúde? Em conversa com o IBras, o farmacêutico e professor, Luís Fernando Lopes procura responder algumas dúvidas sobre o trabalho, rotina e desafios dos profissionais farmacêuticos que buscam trabalhar junto a pacientes em saúde mental.

Luís Fernando Lopes é farmacêutico, mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento pela USP. Atuou no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), onde realizou interconsultas e participou de grupos de trabalho sobre humanização na rede de serviços de Saúde Mental. Com trajetória profissional marcada pela interdisciplinaridade, tem experiência em áreas temáticas que fazem interface entre Saúde, Educação e Ciências Sociais. Ele também é professor na Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Serviços Farmacêuticos, oferecida pela Faculdade Cathedral, em parceria com o IBras e Abrafarma.

Sobre a especialização, o professore destaca que fazer frente no tratamento em saúde mental dos pacientes, é necessário o engajamento de profissionais interessados em fazer a diferença. “A Pós-Graduação em Farmácia Clínica e Serviços Farmacêuticos do IBras/Abrafarma tomou a decisão acertada de incluir o módulo de saúde mental no conteúdo programático do curso. Os alunos entram em contato com ferramentas de intervenção indispensáveis ao farmacêutico clínico desta área específica”, informa.

Entre os temas tratados durante a aula, Luís destaca: revisão e ampliação de conhecimentos em psicofarmacologia; noções de psicopatologia; manejo farmacoterapêutico dos transtornos mentais mais prevalentes; instrumentos de rastreamento de transtornos mentais e encaminhamento de pacientes; aportes interdisciplinares para atuar em equipes multiprofissionais de saúde mental; formas de atuação em saúde mental em diversos serviços, incluindo a dispensação farmacêutica e o consultório farmacêutico em farmácias comunitárias. “Tudo isso converge para um modo inovador de se apresentar publicamente, motivo pelo qual a Pós-Graduação do IBras/Abrafarma contribui decisivamente na revolução que se opera em torno da imagem do profissional farmacêutico. Ele passa a ter a sua qualificação clínica reconhecida pela população”, completa. Conheça: http://ibras.com.br/cursos/farmacia-clinica-e-servicos-farmaceuticos/

Confira a entrevista:

IBras: Quais os principais conhecimentos e habilidades específicas que o farmacêutico deve ter para trabalhar no cuidado farmacêutico em saúde mental?

L.F.: Para atuar no cuidado em saúde mental, a primeira característica do farmacêutico é ter em vista o horizonte clínico das suas intervenções. Seus conhecimentos e habilidades devem estar a serviço do contato direto com o usuário dos serviços de saúde mediante o dispositivo da consulta, razão pela qual o profissional precisa, inicialmente, dominar as técnicas de entrevista clínica e comunicação com o paciente, levando conta as peculiaridades dos consulentes que apresentam sofrimento psíquico. Portanto, são essenciais conhecimentos em psicopatologia, que envolve a classificação, a fisiopatologia e a semiologia dos transtornos mentais. A psicofarmacoterapia e o manejo das ferramentas de acompanhamento farmacoterapêutico completam o quadro de conhecimentos e habilidades indispensáveis ao profissional que pretende atuar no contexto da saúde mental.

IBras: Como o farmacêutico pode trabalhar na orientação para que não ocorra o uso indiscriminado de fármacos pscicoativos?

L.F.: Atuando nas três áreas possíveis a um profissional de saúde: a) educação em saúde junto aos usuários (em grupos educativos, em palestras sobre saúde e qualidade de vida etc.); b) aconselhamento clínico durante as consultas; c) articulação constante com os profissionais prescritores e demais profissionais atuantes na área de saúde mental. Neste último caso, é necessário reservar um espaço de discussão e interprofissional e interdisciplinar para que haja sintonia entre os diversos atores do processo de cuidado. Se todos estiverem engajados no mesmo esforço será factível prevenir ou mitigar os efeitos do uso irracional de medicamentos com ação no sistema nervoso central.

IBras: A Reforma Psiquiátrica do Brasil, em partes, não facilita ou não inclui o farmacêutico no acompanhamento do tratamento, centralizando-o somente na distribuição dos medicamentos. Qual a sua visão a respeito do tema? Como acredita que deveria ser o papel do farmacêutico na saúde pública no tratamento desses pacientes?

L.F.: Sem negar a importância dos processos logísticos (aquisição, distribuição, transporte e armazenamento), a população brasileira tem carência de farmacêuticos inseridos diretamente nos protocolos de cuidado ao paciente. Devido à minha atuação por anos na Estratégia Saúde Família (ESF) e em farmácias comunitárias, sou testemunha do benefício recolhido pelas comunidades que participam de grupos educativos coordenados por farmacêuticos ou que recorrem ao atendimento clínico deste profissional, tanto em visitas domiciliares quanto em unidades de saúdes. O mesmo vale para farmacêuticos que oferecem seu saber e suas habilidades em CAPS, hospitais e outros serviços de saúde públicos ou privados.

IBras: De que forma o farmacêutico pode trabalhar para que se valorize sua presença em uma equipe multiprofissional em saúde mental?

L.F.: Demonstrando sua expertise na área de saúde mental e se integrando plenamente aos procedimentos clínicos da instituição em que atua. No primeiro aspecto, o farmacêutico precisa de qualificação técnica para deixar transparecer o seu valor e justificar o lugar ocupado na equipe. Se ele não está familiarizado com psicopatologia, noções de psiquiatria, reabilitação psicossocial, comunicação com o paciente e psicofarmacoterapia não conseguirá participar de discussões clínicas com terapeutas ocupacionais, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais do grupo. Além disso, o farmacêutico deve encontrar meios (quantitativos ou qualitativos) para evidenciar o resultado das suas intervenções, assim como outros profissionais também o fazem.

 

IBras: Estudos revelam que o uso de benzodiazepínicos pode gerar dependência e tolerância após alguns meses de uso. Como o farmacêutico pode intervir e auxiliar nesse tratamento?

L.F.: Na Estratégia Saúde da Família, no CAPS, em farmácias e outros serviços é possível realizar trabalhos de educação em saúde que abordem o uso criterioso de medicamentos. A população se beneficia imensamente com este tipo de iniciativa. São ocasiões propícias para alertar sobre os cuidados no consumo de psicofármacos, incluindo os malefícios da utilização inadequada de benzodiazepínicos. Simultaneamente, na consulta farmacêutica, o profissional tem condições de orientar os pacientes sobre os efeitos dos benzodiazepínicos, propondo, quando necessário, um procedimento de desprescrição e desmame gradual, que será sugerido ao prescritor como alternativa farmacoterapêutica. Caso a sugestão seja aceita, o farmacêutico clínico acompanhará toda a implementação do protocolo e dará a sua contribuição no processo de cuidado.


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